Credibilidade acima de tudo

dsc_0708_matosinhosRecentemente ficámos a saber que Garrett McNamara “apoia” a candidatura de Almada a Cidade Europeia do Desporto 2018. Rapidamente choveram manifestações positivas e negativas acerca desta opção de representação, sendo natural, até porque Garrett McNanamara não é português o que desafia desde logo a condição patriota dos portugueses, é também lógica, afinal já representou a Nazaré, Portugal, pelo meio marcas e agora Almada.

Já há algum tempo que tinha vontade de escrever acerca deste fenómeno, agora penso ter chegado a altura certa. Desde já, por questões profissionais, sendo marketer e tendo colegas a tomar estas decisões (de escolhas sobre endorsement), apraz-me perceber que todos fizeram excelentes opções ao escolher McNamara como representante daquilo que queriam comunicar. O alcance que conseguiram foi excepcional e por si só, sendo que estamos a falar de bens de consumo (café) ou locais (pais, cidade e vila), o critério de segmentação predefinido é bastante alargado, logo os resultados só podem ter sido mais do que conseguidos.

Recuando um pouco no tempo, e de forma a sustentar esta opinião (não querendo entrar em pormenores técnicos de surf), quando a Câmara Municipal da Nazaré procurou explorar a especificidade da Praia do Norte, recorrendo a um surfista estrangeiro disponível para desbravar as condições únicas desta zona, de forma a dar a conhecer, logo explorar economicamente, esta vantagem (reforço a exclusão da questão tecnica de surf), essa escolha provou ter sido perfeita. Os intentos da autarquia, na minha opinião, foram mais do que conseguidos. A Nazaré beneficiou de um alcance sem igual, de extensão mundial, percorrendo todo o tipo de meios e de reconhecimento autentico, já que a zona apresentava-se como tendo ondas especificas e o surfista explorou essa especificidade no seu expoente máximo. Assim, podemos concluir que o objectivo era claro e o resultado superou esse objectivo. Hoje a Nazaré está no mapa (reconhecimento) e evoluiu economicamente no sector privado.

Pegando nos percursores (CMN) e levando esta estratégia para todas as outras relações representativas – Portugal, Café Boundi, Lion of Porches e agora Almada, podemos assumir que foram opções válidas, até porque os valores de representatividade (é publico) são interessantes e os resultados imediatos – a constante opção pelo mesmo personagem faz com que o reconhecimento se mantenha em alta, foram também bastante inteligentes já que todas estas marcas tentavam ir buscar algo aspiracional ao “Surf” – com reconhecimento evidente e duradouro. Portanto, parece não haver espaço para grandes criticas negativas às ligações das marcas com este indivíduo, não me parece sequer discutível que as estratégias acima descritas fossem erradas, os resultados provaram ser certeiras.

Todavia, há efeitos colaterais neste tipo de estratégias longas no tempo e comuns na génese. A médio prazo e quando a temática exposta é especifica, neste caso – Surf e Ondas, o alcance per si, sem critério e sem sustentação, não só não converte, como o investimento fica disperso. Senão vejamos, a Nazaré neste momento ficou conhecida, mas, além de projectos privados de imobiliário (não hotelaria), o investimento que aparece, aparece para investir no Garret Mcnamara e não na Nazaré. O que me parece natural, já que o reconhecimento está no indivíduo e não a marca/produto/serviço. Este fenómeno está de facto a acontecer, tendo a Câmara local voltado a investir no reconhecimento da zona por outras vias, não no surf actividade, mas na zona turística como um todo.

A credibilidade também fica beliscada a médio prazo, ou seja, se o objectivo foi apenas alcance/reconhecimento (awareness) o proveito é total a curto prazo, porem a médio prazo a mensagem global de curta duração, torna-se de média duração pelo target conhecedor, o que define como negativa a mensagem se esta for inócua. O que é o caso, já que o mensageiro neste caso não transporta apenas a mensagem, ele proprio representa-a.

Volto à primeira frase e de lançamento deste tema – Almada, na minha humilde opinião, escolheu muito bem se o objectivo é angariar votos no exterior, o que me parece lógico. Todavia, não geriu pelos vistos o target conhecedor e detentor de opinião qualificada, o que em casos como este são fundamentais ter em conta. Não só pela relação social com a edilidade, mas também pela relevância que o target “core” tem a longo prazo numa zona tão especifica e tão importante para Almada como a Costa de Caparica.

Em jeito de conclusão, deixando uma opinião menos mercantilista mas largamente mais eficiente – Algo de muito errado se passa quando se continua a achar que é dinheiro bem gasto disparar “cartuchos” indescriminadamente de forma a acertar em alguém, sem ter a minima capacidade de analisar e apontar ao alvo certo para o produto certo. Já não é nesse tempo em que vivemos.

As administrações já não podem ficar contentes apenas com cadernos de valorização hiperbolizados, a conversão real de tal investimento tem que ser tangível e de preferencia deixando um legado de credibilidade e reputação gerivel. Será sempre fácil de apresentar resultados inócuos, mas cobertos de um valor imenso percepcionado (o alcance e reconhecimento).

Entrevista no website Onfire Surf Mag

pedro-soeiro-dias-mini-entrevista-parte-2Pedro Soeiro Dias, Director do Departamento de Marketing da Despomar, partilha a sua visão sobre o estado do mercado de surf em Portugal, e não só…

Como dirias que está o indústria portuguesa de Surf neste momento?
Essa pergunta terá que ser desconstruída com outra pergunta – Como se caracteriza a indústria de surf?
Digo isto porque, e com toda a naturalidade, aquilo que era uma indústria com um forte cariz endémico, nos últimos anos tem diversificado a sua composição, tornando-se muito complexo definir onde começa e termina esta indústria.
Mas assumindo que a pergunta incide na base da indústria, diria que, ao contrário do que transparece, não está nos melhores dias. Acrescentaria que, com a excepção dos centros de experiências de surf (vulgo escolas), não vislumbro qualquer segmento desta indústria que se encontre estável.

Porque achas que a indústria do Surf perdeu fôlego?
A indústria do surf perdeu fôlego, acima de tudo, porque não soube gerir a sua dimensão e o valor percepcionado vs valor real.
Talvez a comparação com o Golfe ajude a explicar o meu ponto de vista – ambos são desportos/actividades aspiracionais, com um tremendo valor intrínseco, os seus praticantes correm o mundo para desfrutar desta forma de estar, moldam vidas… Ao traduzirmos estes valores emocionais para o mercado, rapidamente percebemos que as marcas de golfe continuam a inspirar, desenvolver, inovar, conseguindo manter o valor percepcionado pelo consumidor em sintonia com o valor proposto, acrescento, desejado. Pelo contrário, as marcas de surf ambicionaram elevar a sua proposta aspiracional a um nível global (dissolvendo a vertente emocional dessa aspiração), bem como perderam o valor percepcionando pelo consumidor. Aliás, este é talvez o maior desafio da indústria – como voltar a ganhar valor junto do consumidor, de forma a conseguir ganhar o espaço perdido para todas as outras marcas (não endémicas) que operam com preços muito mais baixos e estruturas muito mais profissionalizadas.

E que marcas são essas que ocuparam espaço no mercado do Surf?
São inúmeros os exemplos, possivelmente parecerá estranho, mas é considerável todas as marcas de têxtil que trabalhem o segmento jovem. Qualquer marca que queira comunicar com um jovem, activo, urbano e informado, utiliza o surf regularmente. Mais, propõe surf no interior das suas lojas, a preços extremamente competitivos e com design tendencial.
Esta realidade está a redefinir profundamente a opção de compra do consumidor e ao mesmo tempo está a tirar investimento do surf, já que, não só, estão a tirar capacidade às marcas endémicas (vendem menos), bem como não têm a mínima necessidade de reinvestir no mercado do Surf.
É curioso, mas essas marcas aproveitaram tão bem o lifestyle/moda criado pelas marcas endémicas, que os surfistas cada vez sentem menos necessidade ou aproximação ao universo tribal do surf.

O que na tua opinião podia ser melhorado a curto, médio e longo prazo?
Penso que tudo na vida, seja em que momento for, pode sempre ser melhorado e o Surf, como produto, também.
Em primeira análise e numa perspectiva de curto prazo, é fundamental que se perceba que o valor intrínseco ao Surf está em queda, ou seja, aquilo que foi um motor robusto (o Surf como modo de vida) que fez crescer o mercado, está a perder força devido à desvalorização da sua cotação em valor no mercado. O Surf como actividade é ainda extremamente desejado, mas a percepção de valor inerente a esse desejo decresceu para níveis, diria, insustentáveis para a indústria endémica. Como exemplo, há mais pessoas dentro de água, mas as marcas endémicas vendem menos do que antes.
Esta análise tem que ser feita já, para a médio prazo, passarmos para o patamar seguinte. Este processo só é possível voltando atrás no tempo e colocando a questão fundamental – Quanto vale o Surf? E aqui, na minha opinião, reside o grande erro do momento. Estamos consecutivamente a validar o Surf negócio pelo número de praticantes e não pelo seu valor concreto. Acrescento, tem havido alguma irresponsabilidade nos números que são colocados na “rua” sobre o valor do Surf.
Hoje, falar em alcance, é muito diferente de falar em conversão. De forma directa, volto a acrescentar, o mercado está mais pequeno do que antes. Quando reavaliarmos o mercado, em dimensão e valor, quando valorizarmos (novamente) o Surf, em valor percepcionado, naturalmente a longo prazo entramos em fase positiva e consistente.

Quais são as grandes limitações do mercado português?
O mercado português tem duas enormes limitações: dimensão e poder de compra.
Eu acrescentaria outra limitação (não portuguesa, mas global), não no mercado, mas na pratica do Surf. O Surf é finito. Tanto o território, como as ondas (na sua cadência) são finitas, têm limite. E esta é outra análise que não se tem feito.
A nível económico, existe um balizamento conhecido como – capacidade de carga. No Surf, e em particular em determinadas zonas, este valor está em larga escala desajustado.
Esta é talvez das situações mais graves do Surf actualmente, em particular ao nível da sustentabilidade ambiental, económica e social.

E vantagens?
Felizmente, são mais do que as limitações.
Uma costa única, um sol delicioso, projectos fabulosos; turismo, não regulado, mas florescente (não em dimensão, mas em qualidade); propostas comerciais de excelente nível; marcas nacionais com imenso valor; os melhores eventos do mundo…

Quais são os exemplos que se deviam seguir?
Eu acredito que muito pouca coisa há para inventar e há todo o mundo para reinventar, assim penso que há muito bons exemplos a seguir.
Particularizando, e dando como exemplo os centros de experiências de surf (vulgo escolas), França teve o mesmo processo de exploração máxima, ultrapassando largamente a capacidade de ocupação. Posteriormente criaram regulamentos e organizaram-se. Penso que deveríamos seguir o exemplo deles.

A Despomar tem tido um percurso de grande sucesso em Portugal, o que achas que fez desta empresa um sucesso tão distinto?
A palavra que melhor define este trajecto, é a mesma que define as pessoas (Paulo Martins, Artur Fernandes e Luís Alves) que estão por detrás desta organização – Seriedade.
Só com muita seriedade, empenho, energia e visão é que se consegue chegar até aqui e continuar a olhar para o futuro. A gerência tem sabido entender os desafios, criar soluções, adaptar-se e consecutivamente acrescentar valor ao mercado.
A Despomar é um dos maiores empregadores do conselho de Mafra e largamente o maior na Ericeira, valoriza as suas parcerias e olha para a sua origem (o surf) como mote para o futuro.

O que é sustentável e não sustentável neste momento?
Esta é uma pergunta muito difícil e de análise pessoal, penso ser impossível alguém afirmar com toda a certeza o que é ou não sustentável na industria do Surf…
Acredito muito no valor emocional do Surf e da experiência que ele promove. É uma actividade que tem definido vidas, mas como em tudo neste mundo, tem a sua dimensão limite e penso que essa já foi ultrapassada. Se pensarmos numa qualquer estancia de neve, toda as propostas comerciais estão limitadas à dimensão da própria estancia. O número de camas não aumentará, porque a estancia não comportará mais pessoas nas pistas. O mesmo acontece com o Surf, tem uma determinada dimensão.
Mesmo a nível comercial e sendo uma proposta aspiracional, a sua dimensão será sempre definida pelo mercado e o passado recente provou que não era sustentável pensar num mercado crescente e sem limite. Infelizmente com efeitos negativos e sem retrocesso.
Todavia, e também como em tudo na vida, os ajustes são feitos e a sustentabilidade aparece.

O que tens a dizer sobre as apostas do mercado em geral?
O Surf, a sua indústria e, por sua vez, o mercado viveram um período de transição e adaptabilidade durante o ano de 2011. Correspondeu ao período em que a crise mundial teve a sua máxima expressão na nossa indústria, a qual teve repercussões enormes, foi o descobrir de fraquezas que não eram de todo perspectivadas, muito menos foram antecipadas… Toda a indústria teve que sofrer reformas profundas, o que naturalmente mexeu na forma como se expressava e se explorava.
A trilogia eventos, surfistas e meios, sofreu ainda mais, porque estavam sobrevalorizados. Esta é uma opinião polémica, mas se fizermos uma análise fria, percebemos que haviam surfistas assalariados a mais, eventos explorados por promotores em défice e muitos meios com as mesmas propostas nas mesmas regiões e canais. Reforço ainda que, a qualidade estava longe da quantidade e a médio prazo os efeitos são sempre de ajuste, no limite foi isso que acabou por acontecer, a própria indústria adaptou-se.
As opções de investimento ocupam muito da minha analise diária, e acredito que estes são os pilares da nossa proposta, todavia é fundamental perceber qual o valor que está inerente ao projecto, seja ele o indivíduo, o evento ou o meio de comunicação, e segundo esse valor, qual o investimento justo e possível.
Há algo muito obvio, as marcas endémicas não têm, nem vão ter, os argumentos que outros players tem para intervir ao nível de investimento. Isto é claro.
Assim, o desafio é entender e explorar outras formas de continuar a contribuir e investir no mercado endémico, valorizando-o.

Há uns tempos escreveste que – “A culpa é dos surfistas…” ainda acreditas nisso?
Essa frase foi apenas o título de uma crónica, na qual fundamento essa opinião. Foi apenas um título impactante, todavia acredito que a componente emocional inerente ao Surf teve um peso na indústria insustentável e que abriu as portas a outras estruturas profissionalizadas, as quais, hoje, tem mais sucesso operando na indústria do Surf.
Há 10 anos ouvi um comentário de Kelly Slater num webcast, na altura em amena cavaqueira com Shaun Thomson, que nunca mais me esqueci, dizia a propósito do comentariado das provas de surf – “forget the bros, bring the pros…”. Em 2011 esta frase passou a fazer todo o sentido na indústria do Surf.
O Surf é uma actividade que teve um impacto profundo na minha vida e ainda hoje a primeira coisa que faço é olhar para a aplicação da Nixon para ver as condições de mar, no entanto, o Surf também é um negócio e aí a parte emocional tem que ser colocada em perspectiva, e esse é um exercício fundamental. Pegando no titulo da crónica, nem sempre os “surfistas” estão disponíveis para isso.

O pagamento da discórdia

tbc_it_05_w900pxConfesso que nos últimos tempos, diria nos últimos 3 anos, já não acompanho em directo o circuito mundial online (em streaming). Não encontro uma razão óbvia, talvez o facto de haver transmissões em broadcast, talvez fique aborrecido com os 27 minutos que sobram para os surfistas remarem à procura das ondas… Todavia, nem que seja porque faz parte da minha profissão, mantenho-me atento, informado e, aqui e ali, exploro as opções e encontro as minhas opiniões.

Assim, e até porque, recentemente tem aumentado o numero de criticas em relação às transmissões online da WSL (ex-ASP para os mais distraídos) sobre aquilo que possa vir a ser um serviço de streaming pago (pay per view), não quis deixar de reflectir sobre o assunto.

Este é um tema que na minha opinião, e apesar de o surf ter sido pioneiro nesta proposta (streaming grátis), deixou de ser assunto há muito tempo. Quero dizer, deixou de ser assunto na sua perspectiva comercial, porque no perspectiva legal, deveria estar a ser discutida até à exaustão.

E as razões são simples – comercialmente o serviço de streaming/webcast (fundamental esta distinção. Já que são dois serviços distintos…) deverá ser pago ou viabilizado pelas marcas que pagam os eventos, ou talvez até um elemento de negociação em exclusividade com uma qualquer marca/serviço como o são os vários suportes de comunicação dos eventos (ainda recentemente foi apresentado pela WSL o apoio da Tag Heuer para o “relógio” oficial do Circuito de Ondas Grandes). Porém, há um factor decisivo nos valores que deveriam estar imputados às transmissões online e que não tem sido tidos em conta, muito menos tem sido discutidos ou sequer analisados, que são os valores inerentes aos direitos de exploração de imagem e que devem ser acautelados.

Naturalmente, a WSL estará precavida desta temática, sendo que nas clausulas contratuais dos surfistas do tour, acredito eu, constará a devida permissão para a exploração dos direitos intelectuais e imagem. Todavia, é fundamental, que este tema seja explorado pelos mais diversos intervenientes, principalmente pelos surfistas, já que são eles os mais prejudicados, bem como, curiosamente, a WSL.

As razões são várias, mas além das legais, (apesar de estarem contratualmente contempladas, são “frágeis”…) existem as financeiras, e aqui entram os valores pagos aos surfistas, claramente insuficientes, e os valores gastos pela WSL na realização das provas, também claramente insuficientes. Ou seja, se por um lado temos um baixo valor pago aos profissionais para cederem a sua imagem, por outro temos um promotor que o único suporte financeiro que tem é o operacional e prize money, sendo este último, o único valor pago aos surfistas (em muitos casos não há prize money). Sendo esta uma situação completamente incompreensível, aliás, diria ultrajante, já que um qualquer surfista com baixo ranking, ainda a explorar o QS de baixa premiação, aparece online para um numero de IPs não monitorizado por ele e sem receber o retorno de tal exposição. Adiciono ainda o facto, de que os tempos mudaram e que hoje a grande maioria dos surfistas não tem patrocínios, logo não estão a comunicar nada, nem ninguém, apenas eles próprios.

Em suma, estamos perante um “sem-fim”, no qual a única solução é o pagamento do serviço que fornece a imagem dos protagonistas, nem que seja porque desta forma o mercado está a colocar valor directo nos indivíduos que cedem a imagem, bem como há um impacto imediato entre pagante/serviço, ou seja, os surfistas estarão a receber o valor real do numero de pessoas reais que os estão a ver. Negócio justo portanto.

Curiosamente, no meio das várias criticas, há uma que parece ter mais força, que é o facto de ser grátis há muito tempo, logo haverá uma negatividade no pagamento. Talvez seja verdade numa primeira fase, mas a internet já não é necessariamente significado de grátis e se houver a oferta dos dois serviços, grátis e pagante, facilmente encontram-se formas de dinamizar a escolha entre uma oferta e outra.

Uma coisa é certa, este é um caminho sem retorno, e se numa determinada altura o Surf foi pioneiro, neste momento é fundamental que se pense porque outros desportos com muito mais impacto financeiro nunca optaram por serviços online grátis.

O´neill lança campanha global – Unreasonable

Pode considerar-se razoável a dedicação e empenho da Oneill em criar e aumentar os standards de qualidade nos board sports. De forma celebrar esta atitude, a marca acaba de lançar uma nova campanha global, apropriadamente apelidada de “Unreasonable”.
“A nossa companhia foi fundada com o objectivo de trazer até ao mercado os melhores produtos,” afirma o CEO da Oneill, Willem Haitink. “Desde a criação do primeiro fato de surf, até à criação da primeira loja de surf e o primeiro Leash, temos feito parte da historia dos desportos de pranchas, no produto e no apoio aos melhores do mundo.”
A campanha não se foca apenas na natureza irracional dos atletas e produtos da Oneill, mas foca-se também na juventude.

A campanha foi lançada com um video aspiracional, tendo como música de fundo um novíssimo tema dos AWOLNATION.
“O Surf e a Música andam de mão dada. São instintivos, rítmicos, felizes, tristes, pesados, leves, decepcionantes, compensadores, humildes e gloriosos todos os dias,” diz Aaron Bruno, vocalista dos AWOLNATION. “Só um surfista consegue entender o que é estar dentro de tubo. Seja onde estivermos, na estrada, a tocar em frente a milhares de pessoas, não ajuda mas às vezes penso nos tubos que estou a perder em casa.”

O video Manifesto será seguido de uma coleção de outros videos com alguns dos atletas da Oneill. A campanha culminará com o Festival de Cinema “Unreasonable”, uma oportunidade para vários realizadores – como exemplo vencedor do Sundance Film Festival, Stefan Nadelman – reinventarem os filmes de desportos de prancha.

A CULPA É DOS SURFISTAS…

Desde o primeiro dia que se sente algo mais do que apenas o dever cumprido, fadiga, suor, ritmo cardíaco… Há algo mais, sempre houve. Definiu percursos, moldou vidas e criou negócios. Este é um resumo frio, mas assertivo do caminho de muitos surfistas de sempre.

Desde o início da crise que recriou toda esta industria, que explorei o tema, não a filosofia inerente a esta actividade, até porque sou muito pouco dado a essas coisas, mas procurei respostas, argumentos que me indicassem como é possível que uma indústria, bem dentro da sua maturação, perde completamente a noção do seu mercado e de todos os pilares básicos de um negócio viável.

Apesar de ser assunto cansado e de não ter uma justificação única, até porque a este nível a complexidade estrutural e dimensão do negócio determina que todos os dados são poucos para ruir a pirâmide, ousei chegar a uma pequena e simplória conclusão, dura até – A culpa do estado da indústria é dos surfistas que trabalham na indústria.

Não pela técnica, a performance na água está melhor do que nunca; não pela emoção, a competitividade está ao rubro; não pela criatividade, cada vez há projectos mais interessantes e diferenciadores. Tudo isto define a condição de surfista, revela toda uma existência, impossível de explicar, mas claramente visível.

Volto a dizer que a culpa é nossa, e é nossa porque, de certa forma, não estamos disponíveis para ir mais além, não nos preparamos academicamente, o surf está sempre primeiro do que as responsabilidades, tornou-se sempre mais importante entubar mais uma vez do que ver o crescimento de um qualquer movimento urbano, recriamos projectos onde já existem os mesmos projectos porque queremos ter o pé na areia, elogiamos o nosso escritório na praia, quando os escritórios não são na praia, não queremos ser profissionais, porque já o somos surfando… a impreparação é gritante e temos uma tamanha preguiça pela responsabilidade, agarramo-nos a uma tal intangível ideia de uma vivência única de que apenas quem faz surf sente… É duro dizer isto, injusto talvez, mas palpável, fácil de provar.

Os resultados de outras marcas, com estruturas profissionais e muito pouco ligadas à arte das ondas, estão a ser gritantes num tão curto espaço de tempo. Companhias que sabem como se faz e definem como se faz. Estruturas onde a organização, formação, proposta de valor e acima de tudo a exigência está muito acima das empresas core do passado. Algumas empresas públicas core perceberam isso a tempo e colocaram em cargos estratégicos pessoas que não distinguem o tail do nose, e o que é engraçado nesta observação é que, de facto, não precisam de distinguir. Simplesmente, porque estamos unicamente a falar de negócio, mercado, produto, oportunidade, tudo elementos que se obtém da observação do mercado, de dados, comentários, conselhos, discussões que, curiosamente, podem ser alimentadas por surfistas, mas que porem nunca podem ter o ponto final. Simplesmente porque nunca será consistente a opinião.

Grande parte da culpa da redefinição deste mercado é dos surfistas e esta não é uma afirmação avulso, é lógica, profissional e sensata. E a justificação, para tamanha injúria, está no que referi anteriormente – o surf fornece uma qualquer substância aditiva, que adormece qualquer momento de discernimento, alienando da dureza de um mercado em constante mutação e que requer uma dedicação e resiliência, que muito pouco tem a ver com “feeling”, porque esse, às vezes, trai-nos..

Nixon abre a primeira loja na Europa

nixon_paris-tmDe forma a expandir o conceito de retalho da Nixon, a marca californiana de relógios, acessórios e acessórios audio, abriu a primeira loja na europa, mais propriamente me Paris. Localizada na rua Froissart, mesmo no coração de Le Marais – zona histórica e com uma forte componente criativa de Paris – O novo espaço Nixon está situado junto às principais galerias de arte, lojas de moda e restaurantes de assinatura.

Já em Outubro, Londres recebe novo espaço Nixon, mais uma vez numa localização especial, escolhida a dedo e que represente o posicionamento da marca, no caso na area de Carnaby. Posicionada na rua paralela à famosa Carnaby Street, a nova loja ficará na Newburgh Street e está neste momento em final de execução.

Algumas fotos Aqui.

A California fica do outro lado

huntington-beach-compass-headerRecentemente, apesar de já ter alguns meses, ouvi uma peça da jornalista Marta Pacheco na Antena 1 sobre Surf (podem ouvir aqui), ou melhor sobre o panorama da actividade lúdica/desportiva – Surf. Não só me parece uma excelente peça (apesar de algumas limitações e inverdades) como se revelou a ancora que procurava para falar de um paralelismo que, pelos vistos, é o novo cartão de visita ou se preferirem o novo mote para vender o Surf em Portugal.

Na peça são abordados temas tão vastos como: escolas de surf, proteção da orla costeira, potencial das ondas, alguns números sobre o “valor” económico do Surf, competição, surfistas, ambiente, o turismo do surf, a Nazaré e o famigerado Mcnamara, que por sua vez se tornou embaixador de Portugal além fronteiras, entre muitos outros temas. 

De facto, não sendo novo, estamos perante uma actividade com uma riqueza existencial única e que naturalmente tem sido explorada de uma forma crescente.

Todavia, desde há algum tempo que constato uma consecutiva comparação de Portugal à California, assim nem mais nem menos, compara-se 900 km de costa com 5.500 km, o numero de surfistas em Portugal é somente 1/6 do numero de surfistas na California (apesar da California ter apenas mais 3 milhões de habitantes do que Portugal), 70 anos de surf mais coisa menos coisa e uma industria a rondar os 6 biliões de dólares anuais contra “apenas” alguns milhões, ainda assim, isto são apenas dados estatísticos, pouco valem para tamanha ousadia, isto porque é incomparável culturalmente o caminho que trilhamos e aquele que amadureceu na California nos últimos… repito 70 anos.

É fundamental que se comece a não questionar a inerente subjectividade desta actividade, que não se fecha no plano desportivo e que tem uma componente cultural e turística bem mais rica e sustentável do que a competitiva.

Para justificar esta percepção, volto à peça jornalística e acrescento mais alguns números – mais de 3/4 da peça aborda a componente turística, inerente ao crescimento económico neste segmento, nesse espaço são explorados os negócios de alojamento, recriação, ensino e venda de produtos, reduzindo os eventos competitivos a 10% do valor económico do Surf anualmente. Portanto, numa analise imediata e razoavelmente ponderada percebemos o valor residual da competição nas linhas orientadoras do crescimento económico do Surf em Portugal.

Naturalmente, a competição tem uma importância decisiva na evolução técnica e material do Surf, todavia, neste momento em Portugal está claramente avaliada “por cima”.

E é por isso que não posso concordar, aliás discordo em absoluto, com esta comparação regional, não pela competição, mas pela culturalidade, pela aceitação e exploração do evidente “ouro”, pelo consumo assumido e pelo lifestyle subjacente e respeitado, viciante e com bom aspecto que só as marcas deste meio criaram, uma industria com mais feiras de trade do que o resto do mundo, uma heterogenia que vai para lá da idade ou estrato social.

Em contra ponto está Portugal, ultra competitivo, com mais eventos internacionais do que a própria California, com uma rede de escolas insustentável (Portugal é o pais do mundo com mais escolas de surf per capita), com um reduzido nível de consumo de produtos de surf e um nível técnico (numa relação directa com o numero de praticantes) muito baixo. Um Portugal que é comparável ao sudoeste de França de há 10 anos (curiosamente ajustaram a forma como encaravam o Surf Industria), ignorando o verdadeiro valor subjectivo da actividade lúdica, apostando todo o discurso na vertente economicista desgarrada e de um outro desporto qualquer.

Não ouso pensar que um caminho seja melhor que outro, apenas é evidente que a comparação simplesmente não pode existir… pelo menos por enquanto!